“Faltava dar palco ao pensamento”: Santa Maria da Feira lança festival “Miolo” para desacelerar o ritmo do quotidiano

De 25 a 27 de setembro, a Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira acolhe a primeira edição do Miolo – Festival da Literatura e do Pensamento. Gilles Lipovetsky, Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares e Isidro Ferrer lideram um cartaz de 12 nomes nacionais e internacionais.
Numa época marcada pelo bombardeamento constante de informação e pelo consumo rápido nas redes sociais, Santa Maria da Feira prepara-se para acolher um evento que faz do ato de “parar e pensar” a sua principal bandeira. A primeira edição do Miolo – Festival da Literatura e do Pensamento decorre entre 25 e 27 de setembro de 2026, reunindo 12 figuras de relevo da literatura, filosofia, ciência, política, design e música.
Sob o mote “Do interior do livro ao interior do pensamento”, o festival — que conta com curadoria da jornalista Isabel Lucas — recupera uma tradição cultural do concelho feirense que, no passado, já trouxe à biblioteca nomes como José Saramago, Eduardo Lourenço, Salman Rushdie e Bernard-Henri Lévy.
Um “refúgio” para desacelerar a velocidade da luz
Em entrevista à Rádio Sintonia, o vereador da Cultura, Turismo e Património, Paulo Marcelo, e a diretora da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, Mónica Gomes, apresentaram as linhas-mestras do projeto. Para Paulo Marcelo, a criação do Miolo responde à necessidade urgente de criar uma pausa na agenda diária.
“Andamos todos à velocidade da luz e precisamos de ter aqui uma espécie de refúgio para pensar as coisas de outra maneira, com mais calma e ponderação”, explicou o vereador. “Santa Maria da Feira é conhecida como a ‘cidade palco’, que dá palco a tudo, mas faltava dar palco ao pensamento. Agora, com o Miolo, também já dá“, vincou.
O próprio conceito gráfico do festival carrega essa intenção provocatória. O cartaz de estreia, concebido pelo designer e ilustrador espanhol Isidro Ferrer, ostenta a imagem de um relógio de pedra cujos ponteiros não giram: “É a metáfora de um despertador que não toca e que nos obriga a parar para refletir sobre o tempo que nos está a escapar“, detalhou Paulo Marcelo.
A biblioteca como centro vivo de debate
A escolha da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, uma referência nacional pelos seus índices de leitura, surge de forma natural. Para a diretora Mónica Gomes, as bibliotecas contemporâneas deixaram de ser meros depósitos de livros. “São centros vivos de acesso ao conhecimento e ao debate. O Miolo é a resposta ao que a nossa comunidade nos pede: um espaço onde o livro é o ponto de partida para discutir os grandes temas do quotidiano“, sublinhou.
A responsável destacou ainda a grande adesão do público desde a abertura das reservas: “Temos tido uma procura muito forte em todas as sessões, com leitores a quererem garantir atempadamente o seu lugar“.
Três movimentos e 12 convidados de relevo
O programa do festival organiza-se em três eixos temáticos ao longo do fim de semana:
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25 de setembro — “Dar Forma” (Design e Criatividade): Abertura do festival dedicada ao design e aos processos criativos. O destaque vai para a conferência inaugural do designer espanhol Isidro Ferrer (18h30) e para a abertura da sua exposição de trabalhos, que ficará patente na biblioteca até 15 de novembro.
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26 de setembro — “Pensar” (Filosofia, Ciência e Cidade): Diálogo entre várias áreas do saber. Pela manhã, o físico Carlos Fiolhais e o filósofo Nuno Venturinha debatem o tempo presente; à tarde, a urbanista norueguesa Anne Beate Hovind apresenta o projeto internacional Future Library (uma biblioteca cujos livros só serão lidos em 2114); a tarde inclui ainda o concerto/conversa do projeto musical Lavoisier (Patrícia Relvas e Roberto Afonso); a noite encerra com o prestigiado filósofo francês Gilles Lipovetsky a abordar “O Culto da Autenticidade”.
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27 de setembro — “Narrar” (Literatura e Sociedade): A literatura regressa ao centro da reflexão sobre o mundo contemporâneo. O painel junta o advogado e ex-governante Adolfo Mesquita Nunes, a escritora Dulce Maria Cardoso, a autora catalã Clara Usón, o escritor Gonçalo M. Tavares e a escritora e dramaturga Joana Bértholo (que apresenta o seu mais recente livro).
A entrada no festival é totalmente gratuita. No entanto, as três conferências e três conversas temáticas no auditório exigem inscrição prévia obrigatória através do site oficial em www.festivalmiolo.pt ou na plataforma Bol. O concerto, a apresentação de livro e a exposição de Isidro Ferrer são de entrada livre, sujeita à lotação dos espaços.







