939 920 920 geral@radiosintonia.pt
Sexta-feira, Abril 4, 2025
AtualidadeCulturaDestaquesNotíciasRegistos

Maria Lamas: Uma exposição e debate sobre o legado de uma mulher de Abril

93visualizações

O Museu de Lamas acolheu, a 28 de março, o debate da exposição “Revolução e Mulheres”, uma iniciativa do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), que homenageou Maria Lamas, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos das mulheres e pela democracia em Portugal.

A exposição, patente de 1 a 31 de março, fez parte das comemorações do 50.º aniversário da primeira celebração oficial do Dia Internacional da Mulher, organizadas pelo MDM, e que se encerraram com o debate.

A mostra foi composta por duas partes interligadas: um momento multimédia que demonstrou o papel da mulher antes e depois do 25 de Abril e uma mostra de cartazes, fotografias, livros e notícias, que prestaram homenagem a Maria Lamas (1893-1983). Jornalista, escritora, ativista e presidente honorária do MDM, Maria Lamas foi uma das figuras principais na luta pela liberdade e igualdade de género em Portugal. Maria Lamas foi uma mulher excepcional com uma obra extraordinária“, afirmou Manuela Silva, da direção nacional do MDM, durante a visita à exposição, que contou com uma brilhante performance das atrizes Maria Mar e Kelinha Brandão, do Centro de Cultura e Recreio do Orfeão de Santa Maria da Feira, que leram excertos de obras de Maria Lamas, destacando a profundidade da sua escrita.

Ao longo das suas intervenções, Manuela Silva destacou o impacto de Maria Lamas na sociedade portuguesa, lembrando que “ela define que a mulher é interveniente e o que pode fazer num mundo tão grande e com tantos problemas“. Manuela Silva também sublinhou o papel de Maria Lamas no Conselho Nacional das Mulheres e a sua intervenção política ativa, sobretudo nos anos 30, afirmando que “Maria Lamas foi pioneira ao afirmar que a mulher tinha um papel fundamental no país quando ninguém falava sobre isso“.

A importância de Maria Lamas como diretora de publicações foi igualmente sublinhada por Manuela Silva, que explicou que, à frente da revista Modas e Bordados, uma publicação que à primeira vista poderia parecer tratar de assuntos banais, ela conseguiu abordar questões complexas e responder às preocupações das mulheres, algo muito à frente do seu tempo, numa época de censura. Além disso, Manuela Silva destacou o seu trabalho na revista Mulheres, que teve um papel importante na luta das mulheres, durante a democracia. Entre as obras publicadas, Manuela Silva ressaltou a relevância do livro As Mulheres do Meu País, no qual Maria Lamas reuniu histórias de mulheres de várias regiões de Portugal, refletindo a diversidade e os desafios enfrentados pelas mulheres em diferentes partes do país. “Maria Lamas foi uma mulher que, apesar de todas as adversidades pessoais e profissionais, como o divórcio e a expulsão do Século, nunca desistiu de sua missão e continuou a lutar pelos direitos das mulheres“, concluiu Manuela Silva.

A Tuna Esperança de Santa Maria de Lamas, que celebrará 150 anos em 2027, deu um toque musical à noite com uma atuação especial de dois violinistas que tocaram música de Bath, antes da transição entre a exposição e o debate. Esta exposição foi a segunda dedicada a Maria Lamas em Santa Maria da Feira, sendo a primeira exibida em S. Paio de Oleiros.

Uma das primeiras feministas do país” e “nem Salazar nem a PIDE a conseguiram torcer”

No início do debate, Cristina Tenreiro, professora e presidente da Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira, sublinhou que “é urgente dar a conhecer a Maria Lamas, um nome que deve ser celebrado a todos os níveis, em toda a comunidade, porque as conquistas que ela e tantas outras Marias Lamas ajudaram a alcançar estão hoje a ser ameaçadas“.

Por sua vez, José António Gomes, professor do ensino superior, investigador, crítico literário e escritor, que utiliza o pseudónimo João Pedro Mésseder, destacou, sobretudo, o papel de Maria Lamas na defesa da paz, em particular numa época pós-guerra, no plano internacional. José António Gomes lembrou que Maria Lamas foi presa devido ao seu intenso envolvimento nas causas sociais e no empoderamento das mulheres. Também sublinhou que, apesar de ser uma “mulher de cultura, artes e literatura“, esta sua faceta, por vezes, foi “apagada pela energia da sua força cívica“. Além disso, destacou o trabalho pioneiro de Maria Lamas na literatura juvenil, género que iniciou em Portugal, a par com Virgínia Castro de Almeida. José António Gomes sublinhou ainda que Maria Lamas foi “uma das primeiras feministas do país” e que “nem Salazar nem a PIDE a conseguiram torcer“. Por fim, mencionou o papel de Maria Lamas como uma “âncora para exilados portugueses em Paris“, destacando, uma vez mais, a sua influência e o seu impacto a nível internacional.

Manuela Silva revelou que José António Gomes participou nos dois congressos temáticos sobre Maria Lamas, em 2004 e 2015 organizados pelo MDM. Também recordou que ela própria teve a oportunidade de a conhecer pessoalmente e partilhar o espaço do MDM com Maria Lamas, reforçando a relevância histórica da sua contribuição para a sociedade portuguesa e internacional.

No final do evento, foi feita uma homenagem a Maria Teresa Horta, uma das “Três Marias”, que faleceu este ano. As atrizes Maria Mar e Kelinha Brandão realizaram a leitura de poemas de Maria Teresa Horta, encerrando a noite com o poema Mulheres de Abril.

Leave a Response