“O ciclo tem-se afirmado cada vez mais”: oito anos a dar voz ao “património silencioso” em Santa Maria da Feira

Da fusão inédita com percussão até às bandas sonoras de Hans Zimmer, passando pela estreia de grandes figuras internacionais como Baptiste-Florian Marle-Ouvrard. O Ciclo de Órgão de Tubos regressa a Santa Maria da Feira para uma oitava edição que desafia convenções e que promete redefinir a sonoridade das igrejas do concelho ao longo do mês de novembro.
Santa Maria da Feira prepara-se para viver mais um mês de novembro profundamente dedicado à imponência e à riqueza sonora do seu património organístico. A oitava edição do Ciclo de Órgão de Tubos decorre entre 6 e 29 de novembro, afirmando-se através de uma programação eclética e audaciosa que cruza a música antiga e o barroco com as grandes bandas sonoras do cinema, arrojadas propostas de improvisação e cruzamentos instrumentais pouco convencionais.
Mais do que um conjunto de concertos, este ciclo é o reflexo de uma visão artística bem vincada. Como sublinha o diretor artístico da iniciativa, o maestro e organista Rui Soares, o grande propósito passa por “retirar o órgão daquela ideia de instrumento balofo” e demonstrar a sua imensa monumentalidade e versatilidade. “Um órgão que não é tocado é um património silencioso”, reforça em entrevista, sublinhando o esforço contínuo de manter este legado vivo, pulsante e de portas abertas para públicos cada vez mais amplos.

A “peregrinação” de um público fiel e o pioneirismo feirense
Ao longo dos anos, o festival deixou de ser apenas um evento local para se transformar num verdadeiro fenómeno de dedicação cultural. “O ciclo de órgão tem-se afirmado cada vez mais como uma oferta cultural do município de Santa Maria da Feira que está naturalmente mais intrinsecamente ligado à igreja […] mas que tem o propósito de aumentar a oferta cultural que estes espaços maravilhosos encerram“, aponta Rui Soares. O maestro destaca a forma generosa como a comunidade tem correspondido: “Temos públicos que fazem uma espécie de peregrinação pelos concertos todos, é impressionante“.
Esta comunhão entre o público, os espaços sagrados e os artistas granjeou a Santa Maria da Feira um papel pioneiro. Sendo um dos primeiros municípios fora dos grandes centros urbanos a apostar fortemente num ciclo desta envergadura, o concelho assume-se hoje como uma verdadeira “catapulta” e fonte de inspiração para que outras regiões comecem também a redescobrir e valorizar os seus tesouros de tubos e vento.
Uma viagem musical de 6 a 29 de novembro

A rota sonora arranca a 6 de novembro, pelas 21h00, na Igreja da Misericórdia, com um concerto inaugural altamente exigente que cruza, pela primeira vez, o órgão com a percussão: Rui Soares junta-se aos percussionistas Marcelo Pinho e Rui Milheiro num programa de transcrições e improvisações que promete abalar as texturas rítmicas tradicionais.
No fim de semana seguinte, os holofotes viram-se para um dos maiores destaques internacionais da edição: a estreia em Santa Maria da Feira de Baptiste-Florian Marle-Ouvrard, consagrado titular da Basílica de Saint-Eustache, em Paris. No dia 7 de novembro (10h00), a Igreja Matriz de Arrifana acolhe uma masterclasse de improvisação orientada pelo maestro francês, enquanto no dia 8 de novembro, no mesmo espaço, o músico apresenta o aclamado concerto a solo Órgão, Literatura e Improvisação, interpretando obras de Sweelinck, Bach, Mozart, Mendelssohn e Jehan Alain, antes de se entregar à magia da improvisação ao vivo.
A viagem continua a estender-se por várias freguesias do concelho, passando a 15 de novembro pela Igreja Matriz de S. Paio de Oleiros, que recebe Filipe Veríssimo (órgão) e a dupla de flautistas Luís Meireles e Leonor Paiva num tributo a Bach e aos seus contemporâneos.
Logo a seguir, a 22 de novembro, a Igreja Matriz de Gião abre portas ao ensemble espanhol Miscelánea XVIII-21, composto por Francisco Gil no corne inglês e Saskia Roures no órgão, numa incursão elegante pelos séculos XVIII e XIX.
Igrejas de Arrifana, Paços de Brandão e Gião estreiam-se no Ciclo de Órgão de Tubos
A reta final avança a 27 de novembro, às 21h, com a Igreja Matriz de Paços de Brandão a acolher Sérgio Silva num programa focado no místico stylus phantasticus do período do Advento, culminando a 29 de novembro na Capela de S. Miguel, em Lourosa, com Pedro Monteiro ao órgão positivo, que sob o mote Grandes Formas, Pequeno Formato cruza a música erudita e o minimalismo com as indeléveis bandas sonoras de Philip Glass, Ludovico Einaudi e Hans Zimmer.
Fiel aos princípios que definiram a sua matriz desde a primeira hora, todos os concertos mantêm a entrada gratuita, complementados por pequenos apontamentos pedagógicos em vídeo que ajudam a desvendar a anatomia e a alma de cada instrumento antes de cada atuação.












