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Quarta-feira, Março 25, 2026
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25 anos depois, o Imaginarius continua a provocar e a transformar

Thaw é um dos destaques da programação, que coloca o público a refletir sobre a urgência climática
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O Imaginarius – Festival Internacional de Artes Performativas em Espaço Público está de regresso a Santa Maria da Feira entre 21 e 23 de maio de 2026 — e chega com novidades: uma nova designação, uma edição histórica e uma mensagem clara. Aos 25 anos, o festival assume a “resistência” como tema central e promete transformar novamente a cidade num grande palco a céu aberto.

Ao celebrar um quarto de século, o Imaginarius reafirma-se como muito mais do que um evento anual. É um projeto cultural que moldou a identidade do território e a forma como o espaço público é vivido, reunindo este ano 42 companhias, mais de 200 artistas de 16 países e uma programação intensa com 39 espetáculos, uma instalação e mais de 125 apresentações.

Durante três dias, ruas, praças e jardins de Santa Maria da Feira tornam-se cenário de experiências artísticas surpreendentes. Da Europa à América do Sul, da Oceânia à América do Norte, artistas de países como Alemanha, Brasil, Austrália, França ou Reino Unido cruzam linguagens, culturas e visões num festival que aposta na diversidade como prática viva.

A edição de 2026 inclui ainda cinco estreias absolutas e 23 estreias nacionais, reforçando o caráter inovador e experimental que tem marcado o percurso do Imaginarius.

“Resistência” como ponto de partida

O festival, anteriormente conhecido como Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua, passa a chamar-se Imaginarius – Festival de Artes Performativas em Espaço Público, mantendo o foco na experimentação artística e na ocupação do espaço urbano. Como explica o presidente da Câmara, Amadeu Albergaria, “resistência é evolução e força redobrada de celebração”. Para a organização, resistência é “questionar com outra voz e outro tom, desafiar hábitos e abrir espaço para olhar com outra perspetiva, emocionar e surpreender”.

Um quarto de século de impacto cultural

Ao longo de 25 anos, o Imaginarius transformou profundamente a relação entre criação artística e espaço público. “O que começou como uma aposta clara na ocupação artística da cidade tornou-se um projeto cultural estruturante, capaz de influenciar práticas, políticas e perceções”, afirma Amadeu Albergaria. Segundo o autarca, o festival “não se trata apenas de um evento anual, mas de um processo continuado que moldou a identidade do território, criou referências e consolidou uma imagem reconhecível no panorama nacional e europeu da arte em espaço público”.

O investimento municipal acompanha esta ambição: o orçamento para a cultura subiu para 800 mil euros, um aumento de 200 mil em relação ao ano anterior, considerado pelo Presidente da Câmara como “uma afirmação política para o desenvolvimento do concelho e do território”.

Espetáculos que desafiam limites e ocupam a cidade

A programação do Imaginarius 2026 apresenta-se como um verdadeiro laboratório artístico ao ar livre, onde cada espetáculo propõe uma experiência distinta e inesperada. Entre propostas de grande escala e momentos mais intimistas, há criações que exploram o risco, a relação humana e os desafios do presente.

Um dos destaques é “THAW”, da companhia australiana Legs On The Wall, uma instalação performativa de longa duração que promete marcar o ritmo do festival. Suspensa sobre blocos de gelo em lento processo de derretimento, performers desafiam o equilíbrio durante várias horas, num exercício intenso de resistência física e emocional. Mais do que um espetáculo tradicional, trata-se de uma experiência contínua que confronta o público com o tempo real, a fragilidade e a urgência climática.

Também em evidência está “ADN, Odyssée verticale”, da companhia francesa Transe Express, que transforma o espaço urbano numa estrutura monumental em constante mutação. Entre teatro aéreo, música e acrobacia, o espetáculo constrói uma narrativa visual poderosa sobre superação e ambição humana, levando intérpretes a escalar e reinventar o espaço num diálogo entre o chão e o céu.

Num registo completamente diferente, “B-O-M!” aposta numa energia caótica e contagiante. Através de máquinas sonoras, instrumentos e engenhos improvisados, cria-se um universo onde o erro e a imperfeição fazem parte da linguagem artística. O resultado é um espetáculo irreverente, entre o concerto e a performance, que transforma o espaço público num território de experimentação sonora.

“Fuego”, da companhia francesa Gratte Ciel, surge como um momento especial integrado nas celebrações dos 25 anos. Com um formato mais próximo do público, aposta num espetáculo visual e explosivo que combina movimento, surpresa e um fogo de artifício diurno, pensado para envolver diretamente quem assiste.

A tradição também marca presença com o “Correfoc”, que leva fogo, ritmo e intensidade às ruas da cidade. Resultado de uma colaboração entre artistas catalães e portugueses, este ritual coletivo convida o público a participar ativamente, num percurso onde não há fronteiras claras entre quem observa e quem faz parte da ação.

“MAMIL(a)S”, do coletivo brasileiro Desvio Coletivo, propõe uma intervenção urbana provocadora que questiona a forma como os corpos são percebidos e regulados no espaço público. Através de uma ação coletiva em movimento, onde identidades são parcialmente ocultadas, a performance expõe desigualdades e normas sociais ligadas ao género e à liberdade de circulação. Entre exposição e anonimato, o espetáculo transforma as ruas num espaço de reflexão e confronto, desafiando o público a repensar quem pode ocupar a cidade — e em que condições.

Por fim, “Drop Me If You Dare”, da companhia britânica Joli Vyann, oferece um momento mais intimista e emocional. Através de um dueto físico exigente, o espetáculo explora temas como confiança, dependência e vulnerabilidade, numa combinação de dança contemporânea e acrobacia que coloca o corpo no limite.

No conjunto, a programação reflete a essência do Imaginarius: propostas diversas, cruzamento de linguagens e uma aposta clara na surpresa. Ao longo de três dias, o público é convidado a percorrer a cidade sem roteiro fechado, descobrindo espetáculos que surgem em diferentes pontos e que transformam cada esquina numa nova possibilidade de encontro com a arte.

Um festival que cria gerações

Para o presidente da Câmara, Amadeu Albergaria, o Imaginarius “transformou profundamente a relação entre criação artística e espaço público”. Ao longo de 25 anos, o festival ajudou a formar uma verdadeira “geração Imaginarius” — marcada pela curiosidade, pela emoção e pela vontade de imaginar novos caminhos.

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